Como os pensamentos aumentam o stress (e como treinar a mente para viver com mais tranquilidade)
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Já reparaste que há dias em que não aconteceu nada de particularmente grave… e, mesmo assim, sentes um enorme cansaço, ansiedade ou tensão?
O problema nem sempre está naquilo que acontece. Muitas vezes está naquilo que acontece dentro da nossa cabeça.
Vivemos numa sociedade onde pensamos quase sem parar. Revemos conversas, antecipamos problemas, imaginamos cenários, preocupamo-nos com o futuro, culpamo-nos pelo passado… e, sem darmos conta, passamos grande parte do dia presos num diálogo interno que nunca se cala.
Neste artigo vamos explorar a dimensão mental do stress e perceber porque é que a nossa mente pode tornar-se o nosso maior parceiro… ou o nosso maior obstáculo.
Ao longo deste artigo vais descobrir:
- porque é que pensamos tanto
- como o excesso de atividade mental aumenta o stress
- porque duas pessoas vivem a mesma situação de formas completamente diferentes
- o papel das crenças na forma como interpretamos a realidade
- a importância de treinar a tua mente para viver com mais tranquilidade.
A mesma realidade… e duas vivências completamente diferentes
Na segunda-feira de manhã, duas colegas entram na mesma reunião de trabalho.
A primeira sente um grande entusiasmo. Vê a reunião como uma oportunidade para mostrar aquilo que esteve a preparar, receber feedback e aprender.
A segunda entra com um nó no estômago. Tem medo de ser criticada, de falhar, de não corresponder às expectativas sobre si, e passou o fim de semana todo muito nervosa…
A reunião é exatamente a mesma para ambas: com as mesmas pessoas, no mesmo setting, à mesma hora…
O que foi diferente?
Não foi a realidade.
Foi a forma como cada uma a interpretou.
É aqui que começa a dimensão mental do stress.
Ideia-chave deste artigo
Não são os acontecimentos que determinam a forma como vivemos. É o significado que lhes atribuímos
Porque é que pensamos tanto?
O cérebro humano foi desenhado para resolver problemas. Durante milhares de anos, isso permitiu-nos sobreviver.
O que se passa é que hoje já não vivemos na selva rodeados de predadores, mas o nosso cérebro continua a procurar ameaças. Por isso analisa tudo. Compara, antecipa, questiona, cria cenários, revê conversas e imagina perigos que provavelmente nunca irão acontecer…
Muitas pessoas vivem num ruído mental constante. A mente nunca desliga. Está sempre ocupada, sempre em funcionamento, sempre a tentar controlar aquilo que ainda nem aconteceu.
Grande parte do stress moderno não nasce apenas dos acontecimentos externos. Nasce da enorme quantidade de pensamentos que produzimos sobre esses acontecimentos.
É como se vivêssemos permanentemente dentro da nossa própria cabeça. E isso tem um enorme custo para o sistema nervoso.
O pensador compulsivo
A mente é extraordinária. Graças a ela aprendemos, comunicamos, criamos soluções, desenvolvemos projetos e fazemos escolhas.
O problema surge quando deixamos de utilizar a mente… e passamos a ser utilizados por ela.
É aquilo a que podemos chamar um pensador compulsivo. Ou seja, alguém cuja mente funciona em piloto automático.
Os pensamentos surgem sem parar. Saltam de problema em problema. Procuram controlar tudo. Antecipam tudo. Criticam tudo. Questionam tudo.
É muito comum ouvir pessoas dizerem:
“Não consigo desligar.”
“A minha cabeça nunca para.”
“Estou sempre a pensar.”
Quando isto acontece, o sistema nervoso permanece em estado de alerta durante demasiado tempo.
O corpo interpreta esse excesso de atividade mental como se existisse uma ameaça constante. E o resultado é previsível: mais tensão, mais ansiedade, mais stress, mais desgaste físico e emocional.
O stress é criado pela mente?
A resposta é “também, mas não só”. O stress é muito mais complexo do que isso.
Ao longo desta série vimos que envolve o corpo, as emoções, a energia, as relações, a mente e a dimensão espiritual.
Mas a mente tem um papel muito importante: ela amplifica aquilo que vivemos.
Duas pessoas podem enfrentar exatamente o mesmo desafio e, enquanto uma vê uma oportunidade de aprendizagem, a outra vê uma ameaça. Enquanto uma cresce, a outra bloqueia.
A realidade é a mesma. Aquilo que muda é a interpretação.
Como tal, muitas vezes aquilo que mais nos faz sofrer não é a situação em si., mas sim a história que contamos sobre essa situação.
É por isso que compreender a mente é tão importante – porque quando aprendemos a observar os nossos pensamentos, deixamos de acreditar automaticamente em todos eles.
E isso começa a devolver-nos liberdade.
Porque é que duas pessoas vivem a mesma situação de forma diferente?
Anthony Robbins conta uma história muito interessante no livro “Desperte o Gigante que Há em Si”, que ilustra esta ideia de forma exemplar.
Ele fala de dois irmãos que cresceram exatamente na mesma família.
Tinham um pai alcoólico, toxicodependente e extremamente violento, que acabou preso por homicídio.
Os dois irmãos viveram a mesma infância e foram expostos aos mesmos acontecimentos.
No entanto, quando cresceram, seguiram caminhos completamente diferentes.
Um deles tornou-se também dependente de drogas, envolveu-se em comportamentos violentos e acabou preso.
O outro construiu uma família, desenvolveu uma carreira de sucesso e decidiu conscientemente não repetir os padrões do pai.
Quando perguntaram aos dois porque tinham seguido aquele caminho, ambos responderam exatamente da mesma forma:
“O que mais me poderia ter tornado, com um pai assim?”
A frase era a mesma, mas o significado era completamente diferente.
Um utilizou a sua história para justificar a sua desgraça. O outro utilizou exatamente a mesma história para decidir fazer diferente.
Talvez esta seja uma das ideias mais importantes deste artigo: o que determina a nossa vida não são não são os acontecimentos, mas o significado que lhes atribuímos.
O que são crenças limitantes?
Grande parte da forma como interpretamos a realidade nasce das nossas crenças.
As crenças são ideias profundas que fomos construindo ao longo da vida e que acabamos por aceitar como se fossem verdades absolutas.
Muitas começaram ainda na infância. Foram sendo moldadas pela educação que recebemos, pela família, pela escola, pela cultura onde crescemos e pelas experiências emocionais que fomos vivendo.
O mais curioso é que muitas delas são totalmente inconscientes. Funcionam como um par de óculos invisíveis através dos quais olhamos para o mundo.
Não vemos a realidade tal como ela é. Vemo-la através dessas lentes, que são as nossas crenças. E algumas podem ser muito destrutivas e limitantes.
Alguns exemplos muito comuns de crenças limitantes são:
- “Não sou capaz.”
- “Isto é demasiado difícil.”
- “Tenho de controlar tudo para que corra bem.”
- “Já não tenho idade para isso.”
- “A vida é perigosa.”
- “Se falhar, sou um fracasso.”
O problema destas crenças é a forma como condicionam todas as nossas decisões: se acreditas que não és capaz, provavelmente nem vais tentar; se acreditas que vais falhar, entras logo numa situação com medo e tensão… E muitas vezes acabas por criar exatamente aquilo que mais receavas – a aquilo a que a Psicologia chama uma profecia autorrealizável.
E sem perceberes, começas a agir de forma coerente com aquilo em que acreditas.
Como as crenças fortalecedoras mudam a nossa vida
Felizmente, também existem crenças que trabalham a nosso favor. São aquelas ideias que nos ajudam a crescer e a enfrentar os desafios com mais confiança.
Por exemplo:
- “Sou capaz de aprender.”
- “Posso melhorar.”
- “Os erros fazem parte do caminho.”
- “Se cair, volto a levantar-me.”
- “A vida vai trazendo os recursos de que preciso.”
- “Os desafios ajudam-me a crescer.”
Estas crenças não eliminam as dificuldades, mas mudam completamente a forma como nos posicionamos perante elas.
Uma pessoa que acredita que pode aprender encara os erros como parte do processo. Outra que acredita que tem de fazer tudo perfeito vive constantemente em ansiedade e auto-exigência extrema.
É exatamente por isso que duas pessoas podem viver a mesma experiência de formas completamente diferentes.
Aquilo que para uma pessoa representa uma oportunidade de crescimento pode ser vivido por outra como uma enorme ameaça.
A realidade externa é igual. A experiência interna muda completamente.
É possível treinar a mente?
A boa notícia é que sim.
Os pensamentos são um hábito, e os hábitos podem ser transformados.
Tal como treinamos o corpo através do exercício físico, também podemos treinar a mente e a forma como pensamos.
Isso não significa deixar de ter pensamentos negativos – todos nós os temos! Todos sentimos medo. Todos criamos histórias na nossa cabeça.
O objetivo não é ter uma mente perfeita.
O objetivo é deixar de acreditar automaticamente em tudo aquilo que ela diz.
Entre um pensamento e uma resposta existe sempre um pequeno espaço. É nesse espaço que nasce a liberdade.
Quanto mais consciência desenvolvemos, mais facilmente conseguimos observar os pensamentos sem sermos arrastados por eles.
Pouco a pouco, a mente deixa de comandar a nossa vida. Passa a ser uma ferramenta ao nosso serviço. E isso muda profundamente a forma como vivemos.
A mente pode ser uma prisão… ou um espaço de liberdade
Ao longo deste artigo fomos percebendo que o stress não depende apenas daquilo que acontece à nossa volta, mas depende sobretudo da forma como interpretamos aquilo que acontece.
As crenças moldam os pensamentos. Os pensamentos influenciam as emoções. As emoções refletem-se no corpo. E tudo isto acaba por determinar as decisões que tomamos e a vida que vamos construindo.
A mente pode ser uma enorme fonte de sofrimento. Mas também pode tornar-se um espaço de clareza, serenidade e liberdade.
A diferença está na consciência com que aprendemos a observá-la – porque quando transformamos a forma como olhamos para a vida… transformamos também a forma como a vivemos.
Perguntas frequentes:
Porque tenho tantos pensamentos negativos?
A função da mente é produzir pensamentos. E dentro dos pensamentos que a mente produz, tanto há pensamentos positivos como negativos em todas as pessoas.
É humano ter pensamentos negativos, não há ninguém que não os tenha.
O problema não é ter pensamentos negativos, mas acreditar neles e alimentá-los.
Quanto mais consciência desenvolvemos, mais facilmente conseguimos observar esses pensamentos sem nos identificarmos com eles. Com isso conseguimos escolher aqueles que queremos alimentar e aqueles que queremos descartar, para que não nos perturbem.
O stress é causado pela mente?
O stress envolve várias dimensões – física, emocional, energética, relacional, mental e espiritual. Como tal, não é causado apenas pela mente. No entanto, a mente pode amplificar significativamente a forma como vivemos cada situação, aumentando ou diminuindo o sofrimento.
Porque é que duas pessoas vivem a mesma situação de forma diferente?
Porque cada pessoa interpreta a realidade através das suas crenças, experiências de vida e padrões mentais. O acontecimento pode ser exatamente o mesmo para duas pessoas, mas o significado atribuído a esse acontecimento muda completamente a experiência de cada uma.
As crenças podem ser mudadas?
Sim. As crenças não são verdades absolutas. São interpretações que fomos aprendendo ao longo da vida e que podem ser transformadas através da consciência, de novas experiências e do treino de novos padrões de pensamento.
Como deixar de pensar tanto?
Não conseguimos impedir a mente de produzir pensamentos, porque essa é a sua natureza. Mas podemos aprender a observá-los sem reagir automaticamente a todos eles. Práticas como a meditação, o mindfulness, a escrita ou simplesmente parar alguns minutos por dia para observar a própria mente ajudam a criar esse espaço de consciência.
Livro recomendado
“Desperte o Gigante que Há em Si”, de Anthony Robbins.
Uma obra sobre como as crenças, os padrões mentais e as decisões moldam a forma como vivemos, sentimos e enfrentamos os desafios da vida.
Continua esta viagem
Este artigo faz parte da série sobre as 6 Dimensões do Stress, onde exploramos uma visão integrada do stress e do bem-estar.
Se ainda não leste os artigos anteriores desta série sobre as diferentes dimensões do stress, recomendo que os leias porque todos eles vão preparar uma surpresa que tenho para partilhar contigo em Setembro.
No próximo artigo vamos explorar a dimensão espiritual do stress e perceber porque é que tantas pessoas, apesar de terem uma vida aparentemente preenchida, continuam a sentir um vazio interior e uma profunda falta de propósito.
